É muito comum ouvir tutores dizendo que seu cão tem ciúmes dele, ou que está se comportando de tal forma por ciúmes. Outros dizem que o ato de pedir carinho com a pata ou colocar a cabeça entre os braços do tutor é um sinal de ciúmes do outro ser (filho, namorado, cachorro, gato, etc). Mas será que os animais são passíveis de sentir ciúmes?

Segundo alguns estudos, como o da Dr Karen Overall, da Pensilvânia, dizem que os cães não são capazes de sentir ciúmes. Essa é uma interpretação humanizada. Na verdade, os cães estão apenas tentando entender o que está acontecendo naquela determinada situação.

Segundo a Dra Overall, ciúme é um conceito em psicologia humana que varia na forma como é definida, e é difícil de testar. Os pesquisadores Rydell e Bringle, em seu estudo publicado em 2007, usaram testes psicométrico para avaliar dependência, auto-estima, insegurança e confiança. O ciúme estava associado à ansiedade. Assim, o estudo resumo que uma caracterização “ciúme” é prematuro.

“Mas meu cachorro morde meu marido, quando nos abraçamos”

A Dra Overall aponta que essa reação agressiva não quer dizer que os cães estão “guardando” seus humanos como um “recurso social”.  Eles podem apenas estar pedindo um esclarecimento dos padrões comportamentais apresentados entre humano e outro cão ou pessoa. Para isso, o cão acaba usando sinais que ocorrem em eventos agonísticos (de briga). Porém, não implicam necessariamente verdadeira hostilidade ou “agressão”.

Todos esses sinais do cão, mesmo aparentando agressividade, pode ser apenas uma tentativa de definir, estabelecer, solidificar e manter as relações sociais entre ele e “seu humano”. Isso ocorre estre duas espécies com uma história co-evolutiva, mas que diferem no repertório de verbais e sinais não verbais. Cada um (humanos e cães) tem uma forma própria de se comunicar. E, muitas vezes, há um desentendimento no que significa cada reação.

“Eu tenho certeza que meu cachorro sente ciúmes!”

A ciência não descartou a possibilidade de haver um real ciúmes por parte dos cães e gatos. Este é um assunto super polêmico e que está no auge da sua discussão. A grande questão é como avaliar cientificamente a real presença do ciúmes.

Quatro pesquisadores americanos se uniram para desenvolver um estudo pioneiro. Liderados pelo professor Peter Cook, o grupo aplicou um teste de agressividade em treze cães. Após, colocaram esses animais em uma máquina de ressonância magnética (eles eram treinados para isso. Não havia nenhum tipo de punição ou mal estar para o cão).

Enquanto os animais estavam dentro da máquina, seus tutores simulavam dar comida para outro cão (não o dele) e depois jogar comida em um cesto. Os cães com maiores escalas do teste de agressividade também foram aqueles com maior resposta da amígdala (região do cérebro responsável pelos comportamentos de agressividade).

Assim, os pesquisadores concluíram que os resultados encontrados são um sinal de que cães podem, sim, apresentar ciúmes.

Será?

Diante desse estudo, os pesquisadores Judit Abdai e Adam Miklósi, da Hungria, pulicaram uma resposta. Segundo eles, o comportamento de ciúmes é a manifestação de interações comportamentais complexas, iniciadas por um indivíduo. Este visa manter um importante relacionamento social que é ameaçado por um rival.

A minha pergunta é: como o cachorro consegue prever que, ao dar carinho ou petisco a outro cão, seu tutor vai deixa-lo de escanteio? Será que o cão consegue prever qual será nossa reação perante qualquer situação?

Aí esbarramos na Teoria da Mente. Criada em 1978 por Premack e Woodruff, esta teoria significa a capacidade para atribuir estados mentais a outras pessoas e predizer o comportamento das mesmas em função destas atribuições. Esse processo envolve um sistema de inferências sobre estados que não são diretamente observáveis e que podem ser usados para predizer o comportamento de outros.

Até hoje, não foi possível provar que outros animais, além do ser humano, são capazes de expressar este tipo de estrutura cognitiva.

Ainda segundo Abdai e Miklósi, a maioria dos pesquisadores prefere se concentrar na emoção pensada para controlar esse comportamento, “ciúme”, antes mesmo de compreender os mecanismos do comportamento.

Eles dão uma leve alfinetada no grupo liderado por Cook, dizendo que, ao realizar o estudo sobre ciúmes, os pesquisadores estavam lutando para encontrar, de qualquer forma, fortes evidências experimentais. Assim, a correlação positiva entre a ativação da amígdala e a agressão relatada em cães descrita está longe de constituir evidência de “ciúmes” em cães.

Aprendizado

Outra possível pergunta é: será que nós, tutores, não ensinamos para nossos pets um comportamento que se assemelha ao ciúmes?

Por exemplo, chegou um segundo cachorro em casa. O primeiro cão, sempre teve toda a sua atenção. De repente, você faz mais carinho e dá mais atenção para o novato. A fim de manter a mesma quantidade de carinho/atenção de antes, o veterano vai até você e late. Imediatamente, você para de dar atenção ao novato e retoma o comportamento antigo de dar carinho ao cão mais antigo da casa.

Tchanam! Cães aprendem super rápido, principalmente quando o assunto é carinho e petisco. Bastou ele latir na presença do intruso, que a harmonia voltou a reinar no mundo dele. Depois disso, todas as vezes que você estiver com o novato no colo, o mais velho irá latir. Isso é ciúmes? Acho que não. Mas muitos enxergam como ciúmes, sim.

O que fazer?

O que mais me incomoda perante o discurso do “meu cachorro está com ciúmes” é a passividade do tutor perante este comportamento. Poucos são os que tomam alguma atitude perante esse “sentimento” ou disputa.

É totalmente possível oferecer coisas, desafios e atividades a esse cão “ciumento” para minimizar este estresse ou desconforto. Você pode abraçar seu marido, enquanto seu cachorro rói um osso delicioso. Ele não irá latir ou avançar e ainda será recompensado pelo bom comportamento.

Já imaginou você poder ir ao parque, agarrar todos os cães, sem que seu cachorro pule em você e rasgue sua roupa? Juro que é possível! Basta você dar foco para ele. Ou melhor, tirar o foco dele de você. Mostrar para ele que há diversas outras coisas, pessoas e cães tão ou mais legais que você.

A questão é: você está pronto(a) para isso? Alguns tutores relacionam o ciúmes com amor: “Meu cachorro morre de ciúmes de mim. Eu acho lindo, pois ele demonstra o quanto gosta de mim”. Se você pensa assim, sinto lhe dizer, você está redondamente enganado(a). Ele simplesmente não tem outro foco, além de você. Isso não tem nada a ver com amor, apenas com dependência e falta de socialização.

POR LUIZA CERVENKA DE ASSIS (bióloga, com mestrado em psicobiologia (comportamento animal) e pósgraduação em jornalismo.)

fonte: Estadão