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Preconceito contra cães de raça e hostilização contra seus tutores

Se você ama um cachorro, ame todos os cachorros.

Cães Sem Raça Definida, os nossos queridos vira latas, sempre sofreram muito preconceito da sociedade. Distantes de serem um símbolo daquele grupinho seleto que representava status, eu lembro bem que as pessoas tinham vergonha e se sentiam intimidadas em sair com seus SRDs, justamente pelos olhares de julgamento.
Felizmente, graças ao trabalho incrível de ONGs e protetores independentes, de inúmeras campanhas e da própria mudança de perspectiva do público, podemos ver que estamos seguindo para frente, mesmo que as vezes os passos sejam pequenos.

Falando de maneira realista, sem dúvida ainda estamos muito longe do ideal, e é inegável que ainda há muito a ser feito. Os SRDs ainda precisam muito de nossa ajuda e continuam sofrendo muito preconceito, porém, não acredito que a melhor forma de incentivar a adoção seja pregar que x é melhor que y, afinal, dessa maneira, estaremos apenas reproduzindo o mesmo preconceito que queremos quebrar.
Preconceito, para deixar mais claro, é “um juízo preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória”. Muitas pessoas em nossas redes sociais não podem ver um cachorro de raça definida sem falar frases já batidas como “Por que não é um SRD?”, “Por que não adotou?”, “Que hipócrita, tem um RD, mas diz que gosta de animais”, etc.
É tão automático para algumas pessoas que até em matérias que falam sobre cães de RD que foram adotados, mesmo assim ainda escolhem falar mal e seletivamente ignorar que eles também foram abandonados e vítimas de maus-tratos.
E é essa abordagem que gostaríamos de questionar. Se você não concorda com o comércio de animais, e por pensar assim, acredita que tem o direito de hostilizar os tutores desses cães para “conscientizar”, como se os fins justificassem os meios, estará não só atrapalhando o diálogo sobre adoção, como também ultrapassando o limite do respeito pelo espaço do próximo.
Devemos lembrar que adotar ou comprar um cachorro é uma decisão pessoal e que algumas pessoas podem simplesmente querer determinada raça, independente do quanto você fale, e os motivos podem ser os mais diversos, indo desde um trabalho específico (sejam os Border Collies e sua incrível habilidade para o pastoreio, o Labrador Retriever como um cão de serviço e rastreamento, o São Bernardo para resgate, e tantos outros), até uma maior associação com os traços que aquela raça carrega. Não é um pecado o que eu estou falando, é uma realidade.
E se mesmo falando sobre adoção a pessoa ainda assim decidiu comprar, esse ainda é um direito no Brasil, não o pinte como vilão e muito menos seja preconceituoso e agressivo quando apresentar seu ponto. Converse sobre a importância de conhecer a mãe, o canil, o criador, que nunca compre sem ver com os próprios olhos o lugar onde os cães são criados, que pesquise muito antes de adquirir determinada raça, sobre posse responsável e sobre o compromisso de uma vida que é receber um animal.
No final das contas, tudo volta para o respeito pelo outro, sem impor que ele viva e seja de acordo com o que você julga ser o caminho correto. Se você não compraria um cão, continue sem comprar um animal, foque a sua energia em conscientizar de maneira respeitosa quanto a decisão do próximo.
Não se preocupe com o animal que está sendo amado em uma casa por um tutor que o oferece todo cuidado necessário e uma vida digna. E isso é para as pessoas que deixam comentários em todas as postagens de famosos e anônimos que têm cães de raça e começam a julgar e falar o como eles estão errados, sem nem saber de fato a história daquela pessoa e daquele cão.
Lute contra o verdadeiro vilão e vá atrás da reprodução desenfreada de cachorros que as próprias pessoas promovem, das puppy mills que se espalham, dos estabelecimentos que vendem esses animais abusados, do governo omisso que joga a responsabilidade nos ombros da sociedade civil, dos tutores irresponsáveis que maltratam e abandonam seus cães, com e sem raça definida, aos montes todos os dias, etc.
Apesar de toda a repercussão e dos ataques na esfera pessoal a minha pessoa após ter publicado esse artigo, eu ainda assim reforço que acredito na tolerância, na troca de ideias e continuo sendo contra a intimidação como forma de mudar a cabeça da sociedade.
Até chegaram a sugerir que eu teria algum motivo pessoal para ter escrito essa matéria. Nós aqui no Portal do Dog não permitimos que ninhadas sejam anunciadas, nunca fizemos o anúncio de um canil, não possuímos um canil e eu, ao contrário do que afirmaram por aí, nunca comprei um cachorro, adotei 4 na minha vida.
Se você não faz isso, esse texto não é para você. Não, ele não foi escrito para protetores ou ninguém em específico, muito pelo contrário, mas para pessoas que se confundiram em um argumento de quem é melhor que o outro. Esse texto foi construído para fazer pensar, não para mudar a opinião de ninguém. Se você deixa comentários negativos para alguém, se pergunte se esse realmente é o argumento certo que fará alguém decidir entre adotar ou comprar.
Desde o primeiro dia que começamos esse trabalho, incentivamos a adoção, em diversas matérias, informando e tentando mudar a percepção das pessoas sobre o tópico, dando espaço para grupos de proteção animal e criando nosso próprio projeto chamado “ONG na minha Cidade” para tentar fazer uma ponte entre possíveis adotantes e animais. Continuaremos fazendo isso e muito mais, mas apesar disso tudo, sempre defenderemos um diálogo construtivo como única maneira de alcançar uma mudança.
Ao falar sobre o preconceito específico contra cães de raça E seus tutores, e apresentar uma faceta nesse complexo meio, não quer dizer que estamos desmerecendo os preconceitos sofrido por cães SRD, Pit Bulls, idosos, deficientes, e tantos outros ou falando que este tópico é mais sério do que os outros. Estamos simplesmente apresentando uma situação, e mesmo que alguns afirmem que ela não existe, nós vemos o tempo inteiro nas nossas redes.
Só acho que se queremos um mundo que todos os cachorros sejam vistos de maneira igual, temos que começar por nós mesmos. Espero que um dia os amemos como a espécie rica e plural que é, esquecendo todos esses significados que nós, os humanos, inventamos.

 

Fonte: Portal do Dog

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Published on: 6 novembro 2015
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